sexta-feira, 27 de maio de 2016

ANJO CAÍDO

       



Vivia na clausura e silêncio,

Minha única voz era a poesia.

Tinha sonhos sem esperança

E olhos cegos para o futuro.

 

Eu não sabia a distância

Entre o corpo e a alma,

Pensava nas horas

Com um tempo sem fim.

 

Eu tinha chuva nas mãos

Que escorriam como lágrimas

Dentro do meu coração.

 

As paredes me ouviam,

Mas nada mudava sua cor.

Um odor de saudade pairava no ar.

 

Eu não sabia dessa saudade,

Nem de onde ela surgia,

Ser sozinho era opção.

 

Mas em toda escuridão

Existe uma janela para a luz.

Um ar suave

Para arejar as roupas

E a alma.

 

Chegou-me em resposta

Aos apelos dos poemas,

O grito ardido de minha voz

Que ainda acreditava

(mesmo que oculta)

Na força que existe no amor.

 

Outros olhos, olhos verdes,

Preencheram a moldura

Dos meus tristes retratos.

 

Novas letras cruzaram

Os caminhos de poesia,

Luz em meus dias.

 

No princípio, a duvida,

Aonde me levaria

As andanças de um novo amor?

 

Segui ereto meus conceitos,

Embora meu peito

Sinalizasse com o sim.

 

Nada mudei, enquanto pude,

Mas a leveza das letras

E a construção de novos sonhos,

Fez-me mostrar os dentes

Na corrente de fáceis sorrisos.

 

A paz, e tudo o mais,

Os doces desejos

Em beijos invisíveis,

A silhueta de um corpo desconhecido.

 

Mas ao crescer do sentimento,

O medo concebido nas noites,

O temor da incerteza,

O dedo amputado na poesia.

 

Não se pode todo o tempo

Fingir algo que não existe,

Quem ao amor não se entrega,

Covardemente, desiste.

 

Palavras, somente palavras,

As inverdades pronunciadas,

Como se nada tivesse acontecido.

 

Como se a tinta de uma pintura

Fosse desaparecendo aos poucos,

Até que a tela, sem cor e viço,

Morresse no vício da incerteza.

 

E a beleza que compunham as promessas,

Fugiram na pressa que os covardes têm

Em se esconder na escuridão do próprio.

 

No fundo, os sonhos antes sonhados,

Pereceram naufragados

Na lenda de um oceano de ilusões.

 

Quem considera a crítica um ataque

Servirá de claque no palco das mentiras.

 

Para tantos que lhe assistem

Permanecerá a imagem de um anjo,

Nunca saberão que certos anjos

Têm chifres, ao invés de asas.

 

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