terça-feira, 31 de maio de 2016

A VISITA








Quem bate à minha porta?
Esta hora, até os sonhos estão dormindo...
Qual notícia se esconde lá fora?
Quem vive ou morre neste mundo?

Carros estacionados, luzes apagadas,
Até os gatos descem dos telhados.

A lua nada mostra, além do clarão,
O céu reserva uma nuvem para a chuva,
Os bueiros guardam a memória das ruas.

Quem bate será de que cor?
Terá nas mãos algum papel?
Notícia de parentes distantes?
Algo para o obituário de amanhã?

Porque não fala atrás da porta
Ao invés de insistir na campainha?
Qual a urgência da coisa,
Será que o mundo vai acabar?

Será homem ou mulher?
Se mulher, estará de vestido?
Se homem, vestirá um terno elegante?

Ou será um maltrapilho noturno
Querendo o pão da madrugada?

 E seus olhos,

Qual a cor de seus olhos?

Essa pessoa,
Marcará minha porta
Com sangue de carneiro?

Quero que algo quebre esse silêncio,
Que ele grite então à minha porta!!!

Qual...
Ele então desiste, e calmamente
Caminha em direção oposta.
E eu, com tantas dúvidas na mente,
Nunca terei qualquer resposta.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

CANÇÃO DOS ANJOS



Cor no olhar sonhador,
O amor que se avista na distância.
Sorriso em lábios, esperança,
Alívio da própria dor.

Mãos que afagam o tempo,
Ventos que sopram do passado,
Os sonhos que deitam ao relento,
Estar, sem nunca ter estado.

Ainda sopram seus instrumentos
Os anjos que guardam sua vida,
A música ouvida suaviza
A saudade de todos os momentos.

Dia e noite se dividem,
Sol e Lua se abraçam,
A alma desperta.
Amor, poesia,

E arte. 

O DESTINO DE NÃO SER




Saudade dos beijos que dei,
Sem nunca ter beijado.
Dos sonhos que tive,
Sem nunca ter sonhado.

Saudade de um passado
Que ainda é presente.
Saudade de sentir
O que ainda se sente.
Saudade de ser novamente,
O que sempre deveria ter sido.

Saudade de viver,
O que deve ser vivido.
Saudade de ouvir,
O sussurro que ainda sopra
Nos meus ouvidos.
Saudade do olhar
Que continua perdido.

Saudade de sentir
O abraço que nunca foi dado,
De viajar,
Por lugares desconhecidos,
Saudade de guardar,
O que nunca deve ser esquecido.

Saudade do amor que tive,
Sem nunca ser amado.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

INTERESSA-ME


Interessa-me a arte.

 

 

a face da morte

o disfarce do cego

a cabeça do prego

o soro do leite

o sopro da vida

o preço do pão

a caristia,

O Japão.

 

Interessa-me a sorte.

 

o norte do mundo

o céu mais profundo

o sol Raimundo

o raio e o trovão

a bolsa, a ação

o tato contido

o crime cometido

a razão

 

Interessa-me a arte.

 

o sem sentido

o som sentido

o bom ouvido

a boca maldita

a boca do lixo

o bicho da rua

a lua enfadonha

 

Interessa-me a sorte.

 

o cigarro, a maconha

o vício, o precipício

a hora, o instante

o momento, o agora

 

Interessa-me tanto.

 

a alegria ou o pranto

o canto da ave

a nave espacial

o tal megabyte

a velocidade, o sinal

o anormal e o chão

o bem e o mal

 

Interessa-me afinal.

 

encontrar o motivo

para esse tal


POEMA

ANJO CAÍDO

       



Vivia na clausura e silêncio,

Minha única voz era a poesia.

Tinha sonhos sem esperança

E olhos cegos para o futuro.

 

Eu não sabia a distância

Entre o corpo e a alma,

Pensava nas horas

Com um tempo sem fim.

 

Eu tinha chuva nas mãos

Que escorriam como lágrimas

Dentro do meu coração.

 

As paredes me ouviam,

Mas nada mudava sua cor.

Um odor de saudade pairava no ar.

 

Eu não sabia dessa saudade,

Nem de onde ela surgia,

Ser sozinho era opção.

 

Mas em toda escuridão

Existe uma janela para a luz.

Um ar suave

Para arejar as roupas

E a alma.

 

Chegou-me em resposta

Aos apelos dos poemas,

O grito ardido de minha voz

Que ainda acreditava

(mesmo que oculta)

Na força que existe no amor.

 

Outros olhos, olhos verdes,

Preencheram a moldura

Dos meus tristes retratos.

 

Novas letras cruzaram

Os caminhos de poesia,

Luz em meus dias.

 

No princípio, a duvida,

Aonde me levaria

As andanças de um novo amor?

 

Segui ereto meus conceitos,

Embora meu peito

Sinalizasse com o sim.

 

Nada mudei, enquanto pude,

Mas a leveza das letras

E a construção de novos sonhos,

Fez-me mostrar os dentes

Na corrente de fáceis sorrisos.

 

A paz, e tudo o mais,

Os doces desejos

Em beijos invisíveis,

A silhueta de um corpo desconhecido.

 

Mas ao crescer do sentimento,

O medo concebido nas noites,

O temor da incerteza,

O dedo amputado na poesia.

 

Não se pode todo o tempo

Fingir algo que não existe,

Quem ao amor não se entrega,

Covardemente, desiste.

 

Palavras, somente palavras,

As inverdades pronunciadas,

Como se nada tivesse acontecido.

 

Como se a tinta de uma pintura

Fosse desaparecendo aos poucos,

Até que a tela, sem cor e viço,

Morresse no vício da incerteza.

 

E a beleza que compunham as promessas,

Fugiram na pressa que os covardes têm

Em se esconder na escuridão do próprio.

 

No fundo, os sonhos antes sonhados,

Pereceram naufragados

Na lenda de um oceano de ilusões.

 

Quem considera a crítica um ataque

Servirá de claque no palco das mentiras.

 

Para tantos que lhe assistem

Permanecerá a imagem de um anjo,

Nunca saberão que certos anjos

Têm chifres, ao invés de asas.

 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Nos Jardins de Marselha 25-05-2016


A moldura oval guarda um retrato

Que me leva ao redor do tempo.

Nos jardins de Marselha

Ela me olha,

E suavemente

Solta uma lágrima sobre o chão.

Notre-Dame de La Garde

Guarda aquela tarde especial.

A lágrima

Era a expressão da saudade saciada.

O aroma de lavanda se espalha pelo ar

E faz do ato de amar

A essência de seu perfume.

No antigo Porto

Um soluço flutua sobre as águas.